
A pequena Igreja de Sapataria, de fundação antiga, conserva o seu portal Manuelino e é ainda notável pelo belo revestimento de azulejos de tapete, do século XVII, que forram as suas paredes. De facto, trata-se de um conjunto de grande beleza e que se encontra em bom estado de conservação.
À entrada, o coro alto é sustentado por duas colunas com pias de água benta incorporadas nos fustes; à esquerda, duas outras pias de água benta: a primeira, peça elegante e de bastante interesse, com uma decoração de tipo renascentista. Nas paredes, a faixa inferior dos azulejos seiscentistas é do tipo maçaroca, além destes, porém, os dois altares colaterais são forrados de bons azulejos hispano-árabes. No altar do lado do Evangelho, algumas boas imagens. No pavimento, inscrições do século XVII.
Na capela-mor, o retábulo, do século XVIII, não tem interesse especial, mas nas paredes há ainda dois bons painéis de azulejos do mesmo século.
Na sacristia, de registar um pequeno, mas autêntico arcaz do século XVIII, com a sua ferragem, e um pequeno oratório, com pinturas e talha. Esta característica Igreja rural reúne o segundo conjunto de azulejaria do Concelho, dividido por três períodos. Azulejaria hispano-mourisca sevilhana, do inicio do século XVI, a revestir as mesas dos altares colaterais; revestimento integral da nave, com padronagem e painéis figurativos seiscentistas; painéis pombalinos, na capela-mor.
Os dois altares colaterais mantêm os revestimentos primitivos, desde a fundação da Igreja, documentada especialmente pela interessante porta principal, manuelina. Cada altar apresenta o frontal e uma das ilhargas (as que estão viradas para o arco da capela-mor) decorados com aplicações de azulejos de aresta, a parte central preenchida por padrões de 2 x 2 azulejos, a formar esquemas circulares renascentistas, ladeados por azulejos decorados com motivos florais. Inexplicavelmente ignorados por Santos Simões, são dois excelentes exemplares do género, representando a difusão para Portugal do costume generalizado em Sevilha após o Concilio de 1509, no qual foi proibida a utilização permanente de panejamentos preciosos nos altares, que passaram a ser cobertos de azulejos, geralmente imitando brocados.
O revestimento da nave é magnifico e encontra-se em excelente estado de conservação. Muito mais característico do que o das paredes laterais da Igreja de Santo Quintino, é formado por dois padrões distintos, o chamado de “maçaroca”, de 2 x 2 azulejos, na parte inferior, e um de 4 x 4 azulejos, na parte superior das paredes, servindo também para revestir o frontal de um altar a meio da parede lateral direita da nave, uma única cercadura envolve e separa os dois padrões, enquadrando os três painéis aplicados na nave. Estes painéis representam três evangelistas, São Mateus, São Marcos e São Lucas. O painel representando o quarto evangelista, São João, desapareceu no século XIX com a abertura da capelo do Senhor dos Paços.
Extremamente ingénuos e rudes, pela insipiência da representação do espaço (em especial a tentativa de perspectivação da quadrícula dos pavimentos) e a imprecisão anatómica, são encantadores exemplares (as juntar aos de Fetais) da obra despretensiosa e com fins essencialmente devocacionais dos modestíssimos artesãos do século XVII.
Embora não haja elementos de datação precisos, o conjunto é característico dos meados do século XVII. Poderá ser um pouco mais avançado, contudo, devido ao facto de os painéis já apresentarem contornos negros, realizados a manganês, indicando a transição para a fase final da policromia seiscentista.
A capela-mor apresenta nas paredes dois excelentes painéis pombalinos, pintados a azul e branco, representando a Adoração dos Pastores, na parede esquerda e a Circuncisão, na da direita. A pintura é bastante correcta e a composição das figuras bem construída. Destaca se o tom azul mais forte do enquadramento, muito movimentado, especialmente na cabeceira recortada.
O carácter fragmentário e serpenteante dos concheados destes enquadramentos aponta para o início do ciclo pombalino. A visitação de 1760 (Ísaias da Rosa Pereira) indica que a capela-mor “não tem retábulo, mas só uns painéis pregados na parede, a qual é guarnecida de azulejos”. É provável que estes azulejos referidos sejam os existentes atualmente, e que tenham sido aplicados pouco antes de 1760 (quando estava em curso a decoração da capela-mor), data que convém ao tipo de decoração que apresentam , ligeiramente anterior à dos azulejos da capela dedicada a São Quintino, que devem ser posteriores a 1760.
